Somos apenas um momento no tempo


Somos apenas um momento no tempo, na eternidade que ele encerra. Eu e tu não passamos deste instante, desta ânsia, da efemeridade de um beijo. O beijo incerto, que não existe, que quer existir. O beijo que tem vida própria e vai onde quer. A outra cidade, ao cimo de uma árvore, à casa de alguém, ao outro lado da rua ou simplesmente até ao coração.
Photo: -

If you come closer I´ll show you how it feels

O que ouves lá fora que se confunde com o vento sou eu a bater-te à porta. Abre-a, convida-me para entrar, vamos abrir todas as janelas e deixar a brisa da primavera invadir os nossos sonhos. Vamos sonhar juntos. Adormecer, acordar num mundo melhor. Abre-a, diz que estavas à minha espera à muito tempo, na facilidade de respirar o pólen das flores.
Não me derrubas, eu não te pertenço
Eu sou do ar, o ar que é de todos e
Não é de ninguém. Sou da folha que cai,
Da planta que nasce, do encanto das açucenas
Quando cair, do chão não passo
Quando me levantar, sei que te ultrapasso
Não me derrubas, eu não te pertenço
E como a ave que voa:
Parto, chego e venço!

Mudez

 Pergunto: o que faz alguém merecer a tua mudez, a invenção da tua voz calada? O medo da união das palavras não pode ser suficiente. Ignorância e desprezo: mentira e mentira. Existe gravada na memória do éter a tua mão na minha, naquele tempo distante. Existe um certo brilho escondido no olhar. Existe a lua a observar-nos, tu na tua vida e eu na minha. Pergunto: se a lua tivesse boca, língua e dentes, se a lua soubesse gritar, não nos faria acordar um pouco desta condição de humanos imperfeitos?
Photo: Andy Bettles

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Não somos mais do que esta cólera que me consome. Não fazemos parte dos risos abafados pelas fechaduras, lá fora, nas esplanadas. Não observámos o chegar da primavera, nem nos demos conta que há muito mais para lá do silêncio.
Foto: Ann He

Animals


Não importa chegar, não importa partir, importa-nos apenas estar. E-S-T-A-R. O pensamento é apenas um incómodo que nos aturde as vidas. Não penses, sente, sente-me. Sente-te. O pensamento é amigo da razão e a razão nem sempre tem razão. Vamos ser animais. Não, não vamos... Esquece tudo, ama-me apenas.

A explixação do inexplicável


Arrastas-me. Devoras cada pedaço da razão que sobrevive em mim e arrancas do meu ser o instinto animal mais profundo e sem sentido. Diz-me, o que significa o brilho silencioso dos teus olhos e a ânsia louca dos teus lábios que calam quase tudo aquilo que sabem sobre o amor? Creio que o tempo deixou de existir.
Foto: Joanna Wozniak

Hoje...

"A cidade está deserta e alguém escreveu o teu nome em toda a parte: nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas... Em todo o lado essa palavra repetida ao espoente da loucura,ora amarga, ora doce, para nos lembrar que o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura". O.V.

As minhas mãos desajeitadas debaixo do teu olhar

formaram uma chama de pensamentos na minha cabeça, tão agitados como o roubo do mel a uma colmeia. O que procuravas tu nas minhas mãos envelhecidas pelo trabalho e sofrimento da vida, nas entranhas desse mistério, desse silêncio que moveu o esboço de um sorriso nos teus lábios? Volta, e leva-me contigo.
Foto: David Byun

Sobre o sol de inverno

A ventania bate nos vidros das janelas e as canções de Primavera ainda estão longe de serem cantadas. O sol  queima-nos as cabeças e infecta-nos com dores nos músculos e outras complicações, mas sabe bem. Sabe bem ter-te por perto, debaixo do calor dos lençois, neste absoluto inverno.
Foto: Desconhecido

Sobrevivências

Tenho lidado com pessoas de todos os feitios e personalidades. A neutralidade com todas elas é regra de ouro, mesmo que um caso ou outro me surpreenda... E essa surpresa geralmente é muito comum de acontecer. Mas porquê surpreender-me ou diferenciar? Sinto-me bem porque dentro de mim essa neutralidade perante todas as pessoas surge de uma forma natural e não forçada. Todos têm os seus pontos fracos e o facto de em certas pessoas essas fraquezas serem mais visíveis e fortes, não significa que as tenha de tratar de forma diferente. Até porque é muito mais fácil alguém trocar uma blusa suja por uma lavada, do que trocar o egoísmo pelo altruismo, por exemplo. É triste que haja tanto preconceito e discrimição entre as pessoas. É triste que essas mesmas pessoas vivam nesse ciclo vicioso e vejam maldade onde ela não existe. Não é facil dar um sorriso a quem nos olha de lado, mas talvez se sorrir-mos em vez de retribuir-mos na mesma moeda, os outros mudem de opinião e possam também eles agir no mundo de outra forma.
Foto: D. Mo

Arco Iris

Sair de casa para fazer algo que não nos apetece não costuma ser muito agradável. Para alegrar as minhas expectativas, procurei uma estação de rádio que  me fizesse descontrair e ter mais vontade de carregar no acelarador. Descobri uma ópera leve e suave, capaz de ser bela aos meus ouvidos e descobri uma imensdidão de cores unidas no céu a iluminar o meu caminho.  Sem dúvida que este pequeno momento fez a diferença, a minha pré disposição mudou, e o mundo ficou melhor debaixo daquela pequena chuva e daquele pequeno sol.
Foto: Seljalandsfoss by Brin

Dos outros

 Olho repetidamente para o mundo à minha volta. Em todo o lado, milhares de objectos inconscientes de si mesmos. São os outros. Nunca estamos sós. Em cada imagem que me alegra ou entristece o olhar, está representado um nascimento, uma história, uma situção, uma dificuldade, uma dádiva, uma qualidade, um defeito, muitas pessoas. Nunca estamos sós.

 
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