"Quando alguém procura pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que ele procura, que não permitam que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por esse objectivo. Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos."

Herman Hesse

Sonho.


Em que lugar da tua idade se perderam os teus sonhos? Frágil. Frágeis sonhos que habitaram outrora o teu coração e que foram morrendo afogados pelo sangue que ele próprio bombeia para te manter viva. O abismo não esperará nunca por ti. Não pode haver maior abismo do que este, maior grito, maior morte. Sonhaste com o mundo? O mundo é demasiado grande para a sua pequenez e demasiado pequeno para a sua grandeza. Sonhaste com o céu? O céu é um lugar por onde se poderá sempre passar, mas onde nunca se poderá permanecer. Sonhaste com o amor? O amor é apenas a reles ideia do que sonhas que ele seja, e se não morrer afogado pelo sangue que o teu coração bombeia, morrerás tu por ele.
Photo: Amelia Kay

Medo.


Existes onde o tempo te levou. Pelo caminho ficaram marcas na tua pele e a lembrança da fluidez da água a escorrer-te pelo corpo num dia de chuva em que todos os guarda chuvas foram proibidos. Não há nada a temer. Tu sabes que não há nada a temer. O tempo molda-te aos teus medos, aprendes a abraça-los e a dizer adeus.

Simples e Eterna

Digere com calma o monstro que existe dentro de ti, a linha de imperfeição que te separa do éden. Nos seus braços que se estendem como mantos pelas colinas ou na vista de um gato à janela a vida pode ser simples e eterna. Mas o esquecimento nunca se vai apoderar de ti, o esquecimento é cruel e mesmo que te dê um abraço, terás sempre a memória de que um dia te lembraste de mim.
Hoje vou apenas ser da brisa que vem de um lugar muito distante, o lugar onde o pecado foi apenas a inocência da tua mão na minha.

Somos apenas um momento no tempo


Somos apenas um momento no tempo, na eternidade que ele encerra. Eu e tu não passamos deste instante, desta ânsia, da efemeridade de um beijo. O beijo incerto, que não existe, que quer existir. O beijo que tem vida própria e vai onde quer. A outra cidade, ao cimo de uma árvore, à casa de alguém, ao outro lado da rua ou simplesmente até ao coração.
Photo: -

If you come closer I´ll show you how it feels

O que ouves lá fora que se confunde com o vento sou eu a bater-te à porta. Abre-a, convida-me para entrar, vamos abrir todas as janelas e deixar a brisa da primavera invadir os nossos sonhos. Vamos sonhar juntos. Adormecer, acordar num mundo melhor. Abre-a, diz que estavas à minha espera à muito tempo, na facilidade de respirar o pólen das flores.
Não me derrubas, eu não te pertenço
Eu sou do ar, o ar que é de todos e
Não é de ninguém. Sou da folha que cai,
Da planta que nasce, do encanto das açucenas
Quando cair, do chão não passo
Quando me levantar, sei que te ultrapasso
Não me derrubas, eu não te pertenço
E como a ave que voa:
Parto, chego e venço!

Mudez

 Pergunto: o que faz alguém merecer a tua mudez, a invenção da tua voz calada? O medo da união das palavras não pode ser suficiente. Ignorância e desprezo: mentira e mentira. Existe gravada na memória do éter a tua mão na minha, naquele tempo distante. Existe um certo brilho escondido no olhar. Existe a lua a observar-nos, tu na tua vida e eu na minha. Pergunto: se a lua tivesse boca, língua e dentes, se a lua soubesse gritar, não nos faria acordar um pouco desta condição de humanos imperfeitos?
Photo: Andy Bettles

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Não somos mais do que esta cólera que me consome. Não fazemos parte dos risos abafados pelas fechaduras, lá fora, nas esplanadas. Não observámos o chegar da primavera, nem nos demos conta que há muito mais para lá do silêncio.
Foto: Ann He

Animals


Não importa chegar, não importa partir, importa-nos apenas estar. E-S-T-A-R. O pensamento é apenas um incómodo que nos aturde as vidas. Não penses, sente, sente-me. Sente-te. O pensamento é amigo da razão e a razão nem sempre tem razão. Vamos ser animais. Não, não vamos... Esquece tudo, ama-me apenas.

A explixação do inexplicável


Arrastas-me. Devoras cada pedaço da razão que sobrevive em mim e arrancas do meu ser o instinto animal mais profundo e sem sentido. Diz-me, o que significa o brilho silencioso dos teus olhos e a ânsia louca dos teus lábios que calam quase tudo aquilo que sabem sobre o amor? Creio que o tempo deixou de existir.
Foto: Joanna Wozniak

Hoje...

"A cidade está deserta e alguém escreveu o teu nome em toda a parte: nas casas, nos carros, nas pontes, nas ruas... Em todo o lado essa palavra repetida ao espoente da loucura,ora amarga, ora doce, para nos lembrar que o amor é uma doença, quando nele julgamos ver a nossa cura". O.V.

As minhas mãos desajeitadas debaixo do teu olhar

formaram uma chama de pensamentos na minha cabeça, tão agitados como o roubo do mel a uma colmeia. O que procuravas tu nas minhas mãos envelhecidas pelo trabalho e sofrimento da vida, nas entranhas desse mistério, desse silêncio que moveu o esboço de um sorriso nos teus lábios? Volta, e leva-me contigo.
Foto: David Byun
 
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