Entra um silêncio líquido pela boca, o silêncio que se sente, que chega
ao sangue, que se sabe silêncio líquido. Levanta-te, dá um passo.
Olha-me e não me dês tempo. Sem palavras. O tempo e as palavras
confundem-me enquanto o gelo se derrete e me leva a esperança do
primeiro brinde. Tira-me o vinho, dá-me um beijo. O fundo vazio dos
copos está sempre à espera de um milagre.
Quando os dias se movem
usamos nalgumas coisas uma
violência simples
isso é romper os símbolos que
envidraçam o resto
mas parte quem amamos quando os
dias se movem
se escolheu os limites para a pele
aderir
no fundo de nós mesmos omitem-se
tais coisas
e criam-se ficções, defesas,
crueldades
dos jogos da aparência (à vista
nos perdemos)
e movem-se nos dias seus múltiplos
contrários
e contudo se movem se quem amamos
fere
e o faz de razão fria ou
esquecidamente
e a alegria se torna um torpe
imaginário
quem muito amamos mata: vai-nos
desinventando
Poema de Vasco Graça Moura
Photo: Unknown
Alter Ego
"As palavras são desnecessárias."
As palavras vão de boca em boca, de escrita em escrita. Dirigem-se a alguém, a ninguém. Não há combinações de palavras que consigam provar o que o olhar vê, o que os ouvidos ouvem, o que o nariz cheira, o que a alma sente. A invenção das palavras é uma prática antiga, mas não mais antiga que quem as inventou. Traduzem o amor, o ódio, o sentimento de quem as utiliza. Mas, jamais serão capazes de traduzir o SER na sua totalidade. Sou apenas corpo e espirito pertencente à terra, mas serei sempre somente só este corpo e este espirito e nunca os sentimentos de alguém transformados em palavras...
Ao bater, o coração repete o procedimento das estações e, seguidamente o encontro com a terra.
Dá-me flores e serei para ti primavera. Chora e molha-me a pele, poderei ser esse inverno. Sê o meu sol, aquecerei eternamente o nosso verão. Deixa-me uma folha seca de outono na caixa do correio, aprenderei a dizer adeus.
Photo: Unknown
Tantas vezes a verdade é uma mentira
O mundo é uma escolha. Somente o teu mundo te é fiel a ti mesmo e não há outro igual. O mundo dos outros é essa capacidade de transformar o teu e de lhe abrir as portas para o melhor e para o pior. As vezes o mundo dos outros quer receber do teu o que o deles não dá. As vezes tentas melhorar o teu com algo de novo e bom e o dos outros supõe que lhes viras as costas. Por vezes há mundos que aparecem e brevemente desaparecem. As vezes dás com carinho, porque é isso que importa, mas o mundo dos outros muitas vezes é um objecto que precisa de objectos para ser ele mesmo. Por vezes dizes a verdade, mas como ela dói demais o mundo dos outros pega dela e transforama-a numa mentira e chama-te mentira, porque dói menos acreditar que tu próprio és mentira do que viver a verdade dele próprio. Quantas vezes não fazes pelo mundo dos outros o que ele nunca faria por ti e tantas vezes a verdade é considerada uma mentira.
Photo: Ponyhunter
Dentro do Silêncio
Dentro do silêncio existe um grito e uma voz. As ideias misturam-se com outras ideias e o silêncio continua a ser apenas silêncio. O meu silêncio. O teu silêncio. O fim da palavra amor.
Não há motivo para te importunar a meio da noite
Não há motivo para te importunar a meio da noite,
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.
Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.
Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.
Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.
E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?
Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.
como não há leite no frigorífico, nem um limite
traçado para a solidão doméstica.
Tudo desaparece. Nada desaparece. Tudo desaparece
antes de ser dito e tu queres dormir descansada. Tens
direito a um subsídio de paz.
Se eu escrever um poema, esse não é motivo para te
importunar. Eu escrevo muitos poemas e tu trabalhas
de manhã cedo.
Toda a gente sabe que a noite é longa. Não tenho o
o direito de telefonar para te dizer isso, apesar dessa
evidência me matar agora.
E morro, mas não morro. Se morresse, perguntavas:
porque não me telefonaste? Se telefonasse, perguntavas:
sabes que horas são?
Ou não atendias. E eu ficava aqui. Com a noite ainda
mais comprida, com a insónia, com as palavras
a despegarem-se dos pesadelos.
José Luís Peixoto
"Quando alguém procura pode acontecer que os seus olhos vejam apenas a coisa que ele procura, que não permitam que ele a encontre porque ele pensa sempre e apenas naquilo que procura, porque ele tem um objectivo, porque está possuído por esse objectivo. Procurar significa ter um objectivo. Mas encontrar significa ser livre, manter-se aberto, não ter objectivos."
Herman Hesse
Sonho.
Em que lugar da tua idade se perderam os teus sonhos? Frágil. Frágeis sonhos que habitaram outrora o teu coração e que foram morrendo afogados pelo sangue que ele próprio bombeia para te manter viva. O abismo não esperará nunca por ti. Não pode haver maior abismo do que este, maior grito, maior morte. Sonhaste com o mundo? O mundo é demasiado grande para a sua pequenez e demasiado pequeno para a sua grandeza. Sonhaste com o céu? O céu é um lugar por onde se poderá sempre passar, mas onde nunca se poderá permanecer. Sonhaste com o amor? O amor é apenas a reles ideia do que sonhas que ele seja, e se não morrer afogado pelo sangue que o teu coração bombeia, morrerás tu por ele.
Photo: Amelia Kay
Medo.
Existes onde o tempo te levou. Pelo caminho ficaram marcas na tua pele e a lembrança da fluidez da água a escorrer-te pelo corpo num dia de chuva em que todos os guarda chuvas foram proibidos. Não há nada a temer. Tu sabes que não há nada a temer. O tempo molda-te aos teus medos, aprendes a abraça-los e a dizer adeus.
Simples e Eterna
Digere com calma o monstro que existe dentro de ti, a linha de imperfeição que te separa do éden. Nos seus braços que se estendem como mantos pelas colinas ou na vista de um gato à janela a vida pode ser simples e eterna. Mas o esquecimento nunca se vai apoderar de ti, o esquecimento é cruel e mesmo que te dê um abraço, terás sempre a memória de que um dia te lembraste de mim.
Hoje vou apenas ser da brisa que vem de um lugar muito distante, o lugar onde o pecado foi apenas a inocência da tua mão na minha.
Somos apenas um momento no tempo
Somos apenas um momento no tempo, na eternidade que ele encerra. Eu e tu não passamos deste instante, desta ânsia, da efemeridade de um beijo. O beijo incerto, que não existe, que quer existir. O beijo que tem vida própria e vai onde quer. A outra cidade, ao cimo de uma árvore, à casa de alguém, ao outro lado da rua ou simplesmente até ao coração.
Photo: -
Subscrever:
Mensagens (Atom)









